Quinta-feira, 29 de agosto de 2002
Vá direto à fonte: aprenda inglês por videoconferência
A internet permite que você estude o idioma de seu interesse aqui no Brasil, tendo como professor alguém que vive no exterior, no país em que a língua é falada, por meio de videoconferências. Nos EUA, uma professora criou um sistema de troca de aulas de inglês por português entre americanos e brasileiros
 
Reprodução
O SOSinglês oferece dicas de gramática, exercício e apoio ao aluno com professor plantonista

Há mudanças de impacto que surgem por mero acaso. Como a ocorrida com a professora brasileira Niedja Carvalho Fedrigo, que leciona português na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Angustiada com a falta de brasileiros com quem seus alunos pudessem praticar português, Niedja foi buscar na internet a complementação de que precisava: montou um sistema de videoconferências em que os seus alunos poderiam conversar 10 a 15 minutos de português com um brasileiro se, logo em seguida, se dispusessem a passar o mesmo tempo praticando inglês com o brasileiro.

 

Com essa novidade, estava inaugurada a era de "troca de aulas" via internet.

 

Niedja havia produzido, sem querer, uma das aplicações de maior impacto do sistema de ensino a distância (conhecido como e-learning).

 

A videoconferência já havia sido usada com sucesso em outras áreas de ensino - como história, pedagogia, reciclagem de professores, etc. -, mas em nenhum outro segmento a interatividade propiciada por essa tecnologia é tão importante quanto no ensino de línguas.

 

"Você não aprende sem feedback (ver o resultado do que faz), especialmente no caso de idiomas, em que o feeback em tempo real, por videoconferência, é ainda mais importante, pois as formas de interação por texto têm menos eficiência no ensino-aprendizado", diz a educadora Beatriz Scavazza, coordenadora do laboratório de tecnologias em educação da Fundação Vanzolini.

 

A videoconferência também resolve um problema sério de qualificação dos profissionais do ensino em cidades menores, longe de grandes centros urbanos, onde a presença de estrangeiros ou de professores fluentes pode ser mais difícil. A ligação direta entre o aluno e aquele que fala o idioma fluentemente no exterior torna um "especialista" disponível em qualquer canto do mundo, sem os riscos de assimilação de sotaques.

 

"Uma das grandes vantagens do e-learning é que permite padronizar a qualidade do instrutor", comenta a educadora Claudia Costin, ex-ministra da Administração do governo federal e diretora da empresa tecnológica Promon.

 

"No Japão, por exemplo, o estudo de inglês é dado ao longo de oito anos nas escolas. Mas a falta de exposição dos professores ao inglês faz com que eles criem vícios de pronúncia nos alunos. Nesse contexto, a videoconferência poderia desempenhar um papel importantíssimo na correção de pronúncia."

 

 

Projeto pequeno, mas requisitado

 

Criado em 1998, o projeto da professora Niedja sempre funcionou como uma operação pequena, montada apenas para a prática de seus alunos. Até agora, mais de 300 pessoas já enviaram e-mails pedindo para participar do intercâmbio de aulas. "Eu encaminho os e-mails à turma e combinamos as conversas, mas prefiro que os participantes sejam mais maduros, principalmente universitários, para que o diálogo ocorra em torno de temas de interesse comum", diz a professora, que procura evitar que as conversas evoluam para uma situação de "namoro virtual", que "não seria produtivo" para o curso.

 

Niedja também considera importante que os alunos tenham níveis de domínio do idioma semelhantes. "Se uma pessoa sabe se expressar melhor que a outra nas línguas que estão estudando, é comum que as conversas ocorram no idioma de quem se expressa melhor, e assim a pessoa menos fluente acaba sendo prejudicada."

 

O departamento de línguas não monitora o que é conversado entre os alunos.

 

Só participa da fase de combinação dos parceiros. "Há casos de conversas que estouraram o prazo que definimos, de 10 a 15 minutos em cada idioma, e duraram mais de uma hora", conta Niedja.

 

As videoconferências são realizadas por meio do software NetMeeting, que pode ser copiado gratuitamente no site da Microsoft (www.microsoft.com/windows/netmeeting/) e também vem com o Windows XP. O internauta deve também ter uma câmera para videoconferências e uma conexão de banda larga em sua residência para participar. O projeto está vinculado à Universidade de Michigan e é gratuito (não recebe apoio de nenhuma empresa privada), mas só atende a um número limitado de pessoas. Além disso, fica inativo no período de férias. Outro problema é que, como as conversas só ocorrem à noite, o fuso horário pode dificultar os encontros: a diferença entre São Paulo e Michigan é de apenas 1 hora atualmente, mas chega a 3 horas na época do verão brasileiro.
 

ANDRÉ BUENO Jornal da Tarde