26/11/2002 - 02h54
MBA para lá dos EUA
MARCELO VAZ
free-lance para a Folha de S.Paulo


Fazer um MBA fora do Brasil implica uma série de decisões. Afinal, trata-se de uma mudança de um ou dois anos para um país de língua e cultura diferentes. Os Estados Unidos têm as escolas líderes dos rankings, mas cursos na Europa, na Austrália e no Canadá prometem prometem maior pluralidade, melhor aproveitamento do tempo e, assim, melhor relação custo-benefício.
 
Divulgação
 
Campus da Universidade de Cambridge, fundada no século 13
 
De um lado, as norte-americanas Kellogg, Harvard e Wharton, por exemplo, são referências "naturais", pela tradição e pelo reconhecimento. Mas o país inventor do Master of Business Administration —a pós-graduação em administração de empresas voltada para o mercado— enfrenta a concorrência das francesas Insead e HEC, da suíça IMD, da espanhola Esade, da holandesa Erasmus e das canadenses Queen's e Toronto, entre outros nomes de peso.
 
Para começar, cursos nos Estados Unidos, especialmente os mais conceituados, exigem que estudantes arquem não apenas com uma "tuition" (taxa) mais alta mas também com um custo de vida mais caro, segundo o The MBA Tour, grupo que organiza feiras de MBA pelo mundo. O grupo estima que, em Roterdã (Holanda), o aluno da Erasmus gaste US$ 500 por mês para viver e que US$ 250 seja o gasto dequem frequenta a Melbourne Business School (Austrália). Em cidades como Cambridge e Durham (EUA), sedes do MIT e da Duke, respectivamente, o custo de vida mensal estimado gira em torno de US$ 900.
 
Mas gastos "extras" podem machucar o bolso mesmo fora dos EUA. Em locais sabidamente mais caros, como Londres, a previsão do grupo para estudantes da LBS (London Business School) é US$ 1.000 mensais. Os custos ficam ainda mais altos quando se leva em consideração a duração do MBA. Com dois anos, em geral, as escolas norte-americanas exigem que o aluno se distancie do mercado de trabalho por mais tempo. O modelo europeu normalmente se encerra em um ano —com exceções, como o da própria LBS, de 21 meses.
 
O custo deve ser considerado quando se pretende fazer um MBA de primeira linha, mas não pode ser o único fator na balança —o perfil dos cursos é outro. "Marketing, finanças e gestão geral têm bons representantes em ambos os continentes", afirma Miguel Caldas, consultor da PricewaterhouseCoopers e professor da FGV-Eaesp (Fundação Getúlio Vargas). Algumas escolas anunciam, claramente, programas voltados para áreas específicas. É o caso da canadense Queen's, cujo currículo é formatado para quem tem formação em engenharia, tecnologia e ciência.
 
Arte/Folha Online 
 
 
 
Nos EUA, a quantidade de estrangeiros é baixa —raramente chega aos 50%—, enquanto a média na Europa pode chegar aos 95% —caso da IMD e da Erasmus. Aquelas com representantes vindos de mais países afirmam que isso permite ao aluno criar uma rede de contatos mais ampla e debater questões em perspectivas mais diversificadas.
 
Ao lado da internacionalização, algumas escolas européias defendem o espírito de equipe e ambientes menos competitivos entre os estudantes. "Encorajamos os alunos a colaborar, em vez de competir", afirma Louise Freckelton, gerente de marketing do programa de MBA de Cambridge (Reino Unido).
 
A escolha do país deve ser balizada também por fatores pessoais. "Se você já passou um tempo nos EUA, pode aproveitar a oportunidade de um MBA para conhecer um outro país", afirma Caldas, que, entretanto, recomenda as escolas norte-americanas se o candidato quiser trabalhar no exterior, devido à maior presença de "headhunters" no país. "Se quiser aplicar a formação no Brasil, cursos europeus são boas opções", afirma.
 
O engenheiro Gustavo Chicarino, 33, fez seu MBA na espanhola Esade em 1993. "Pesaram em favor da escolha da Espanha a possibilidade de ver de perto a consolidação do Mercado Comum Europeu e a riqueza cultural do continente", diz.
 
Paul Levison, consultor da Korn/Ferry, acredita que o conteúdo das principais escolas européias não deve nada ao das principais norte-americanas. Mas, para ele, é gastar dinheiro à toa buscar um MBA no exterior, se não em uma das 20 ou 30 principais escolas. "Do contrário, pode-se optar pelos bons MBAs do Brasil."
 
 
Vantagens e desvantagens do MBA fora dos EUA
 
Vantagens:
- anuidade mais baixa e, dependendo do país, custo de vida mais baixo
- duração mais curta permite retornar antes ao trabalho e à família
- maior quantidade de estrangeiros permite fazer contatos mais diversificados
 
Desvantagens:
- menor presença de "headhunters"
- em geral, menos tempo extra para se dedicar aos estudos
- dependendo da escola, pode ter menor reconhecimento no mercado de trabalho
 
 
 
 
Difícil é determinar essas 20 ou 30. Apesar de os diversos rankings serem sustentados por nomes de peso (como "BusinessWeek", "The Economist", "The Wall Street Journal" e "Financial Times"), compará-los pode gerar mais dúvidas do que esclarecimentos, já que usam critérios diferentes. A revista "BusinessWeek" faz distinção entre as escolas dos EUA e as demais (veja quadro). Já a "The Economist" junta todos os principais MBAs do mundo (http://mba.eiu.com) e destaca que apenas 15 européias estão entre as 50 principais. A explicação para isso é uma "performance relativamente fraca na abertura de novas oportunidades", segundo relatório da revista.
 
Matt Symonds, autor do livro "ABC of Getting the MBA Admissions Edge" ("ABC para Chegar à Margem da Admissão do MBA", sem tradução no Brasil), dá mais razões para o domínio dos EUA. "Os principais rankings valorizam o GMAT [teste usado para selecionar candidatos], no qual escolas norte-americanas costumam exigir notas altas. Outro fator é o aumento no salário, proporcionalmente maior nos EUA, já que os cursos de lá têm alunos com idade média mais baixa, em geral."
 
O único MBA brasileiro que aparece nos rankings mencionados é o da Coppead, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, que ocupa a 95ª posição na avaliação do "Financial Times".
 
Mas nem todo mundo está preocupado com comparações. Helle Jensen, assessora de imprensa da Insead (a escola "global" líder no ranking da "BusinessWeek") faz pouco caso com a posição de destaque ocupada pela escola. "Não se deve levar muito a sério todos os rankings. No final, o que mede o sucesso de um MBA é o tipo de oportunidade que traz. Isso depende das habilidades e das aspirações de cada um. Nem todo mundo quer ser um investidor em Londres com um salário de US$ 200 mil por ano."