Reportagem de Capa - O pioneiroJovens em transe

As inseguranças da geração "pós-tudo" podem vir da falta de ideais

Por Simon Franco

Caros leitores: a grande maioria das cartas que tenho recebido nestes últimos meses é de jovens. Na faixa de 20 a 30 anos ou menos - há casos de quem está concluindo o ensino médio. O espantoso é que as questões apresentadas por essa rapaziada são basicamente as mesmas: como conseguir uma vaga de estagiário, estudar ou não no exterior, fazer ou não um MBA. É um horizonte infelizmente muito restrito. Não estou culpando esses leitores nem dizendo que eles estão errados. Eles apenas ilustram o difícil momento pelo qual passa uma geração que encontrou o mundo funcionando a uma velocidade supersônica. Como num poema de Augusto de Campos, é uma geração pós-tudo: pós-revolução dos costumes, pós-revolução sexual, pós-ditadura, pós-Guerra Fria, pós-rock'n'roll, pós-Muro de Berlim...

Disso tudo parece ter sobrado apenas o desejo de ser um indivíduo de sucesso, seja lá o que signifiquem essas palavras. É difícil definir indivíduo, porque, por mais diferentes que sejam as pessoas, parece que todas querem seguir o mesmo modelo. É também difícil saber o que é sucesso, porque hoje em dia sair-se bem em alguma coisa freqüentemente significa destruir outra: quantos profissionais não deixam a família de lado, por exemplo, para se dar bem no trabalho?

Isso tudo acontece num momento da História em que há um país a construir. O Brasil ainda tem muitos atrasos e carências. Neste ponto de transição, a geração jovem de hoje parece viver num transe, numa espécie de ofuscamento. Caríssimos leitores, olhem pela janela, para fora de si mesmos e de seus exclusivos projetos pessoais. Vocês não vivem "no mercado", vocês vivem no Brasil. São cidadãos e concidadãos. Se desejam viver bem - incluindo ganhar bem -, pensem nos grandes casos de sucesso: os protagonistas foram pessoas que responderam a necessidades reais da sociedade. Médicos que desenvolveram técnicas inovadoras, engenheiros que se lançaram em empreitadas na infra-estrutura de energia e comunicação, arquitetos que abraçaram sonhos de modernização do país.

Gostaria muito de poder injetar um pouco mais de idealismo nas mentes juvenis. Ajudar a trocar os sonhos pré-fabricados por ideais de vida. Nós, pessoas comuns, também precisamos de alguma dose de crença. Crença em nossa utilidade para o mundo, por exemplo. Crença de que nossas ações não servem apenas para nós mesmos. Crença de que podemos ser agentes de mudanças importantes. No fundo, trata-se de buscar um sentido para nossas ações e conhecimentos. É exatamente a busca desse sentido que faz os excelentes profissionais. Quem conseguir sair do transe dessa busca frenética poderá ter olhos para enxergar caminhos mais seguros para o sucesso.

Preciso reconhecer também que esse ofuscamento atinge profissionais mais velhos. Quantas pessoas com mais de 40 anos, após muitos êxitos na carreira, não se encontram numa situação de desânimo? Talvez tenham perdido um pouco do sentido de realidade. Essa, aliás, é uma das razões pelas quais muitas empresas hoje estimulam funcionários a se envolver em ações de voluntariado. Elas descobriram que isso pode motivar e dar orgulho às pessoas. Mas ninguém precisa esperar que a empresa indique o caminho da auto-estima e da responsabilidade social. Essa é uma questão que deveria vir antes da decisão por um MBA ou da procura de uma vaga de estagiário.


Simon Franco é diretor-geral de desenvolvimento estratégico na América Latina da TMP Worldwide

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Revista Exame - Edição 740 16/05/2001