EDUCAÇÃO - Até que ponto vale a pena investir uma fortuna num diploma

Com a ilusão de conseguir um lugar garantido no mercado de trabalho, muita gente paga qualquer preço para encher o currículo de títulos

Por Daniela D’Ambrosio

Todo mundo sabe: estudar é fundamental. Aprimorar a educação é o caminho para uma carreira promissora. Atualizar os conhecimentos profissionais é obrigatório para não ficar para trás no mercado de trabalho. Mas estamos aqui para encarar uma outra verdade: às vezes, paga-se um preço alto demais para empunhar um diploma, muito mais alto do que ele talvez realmente mereça. Na ansiedade de acumular títulos sem nenhum critério só porque alguém disse que é bom, por medo de ficarpara trás, porque é moda ou porque... por que mesmo?, estudantes de todos os níveis (e também seus pais) abrem a carteira de olhos fechados. Sacrificam outras prioridades de suas vidas e pagam, sem dó, a salgada mensalidade de um curso, seja bom, nem tanto ou — desculpem-nos a franqueza — uma porcaria. Compram a ilusão de que qualquer canudo é lugar garantido no mercado de trabalho e um passaporte para uma carreira promissora. Nem sempre é assim.

A educação é crucial, vamos deixar bem claro, mas não é por isso que pode deixar de ser vista como um investimento. E que investimento. Um curso superior custa hoje entre 20 000 e 120 000 reais, dependendo da escola e da carreira. O mais cobiçado (e caro) dos títulos da atualidade, o MBA (Master in Business Administration), em tempos de dólar na casa dos 2,50 reais, alcança a proibitiva cifra de 450 000 reais numa escola americana de primeira linha, como Harvard ou Wharton. É grana suficiente para comprar um apartamento de quatro dormitórios em Copacabana, no Rio de Janeiro. E leve em consideração que são dois anos sem salário durante o curso.

Lógico que a qualidade do canudo faz uma enorme diferença e, se o candidato for realmente inteligente, disciplinado e demonstrar qualidades como liderança e senso de oportunidade, o retorno virá. Mas pode demorar até dez anos para chegar, segundo um simulador que calcula o retorno sobre o investimento dos MBAs elaborado pelo site da revista Business Week (www.businessweek.com/bschools). Há 15, 20 anos atrás, aparecer com um MBA estampado no currículo era uma raridade. Hoje, porém, é cada vez maior o número de brasileiros donos de um desses títulos.

Com a concorrência cada vez maior, todo cuidado é pouco. Há picaretagens nesse mercado também. Escolas sem tanto prestígio e até cursos expressos que usam as três letras mágicas como golpe de marketing cobram valores exorbitantes. Será que uma escola assim vale quanto pesa no seu bolso? Será que, na sua profissão, para os objetivos que você almeja, é realmente preciso um MBA desses? Muitas vezes não.

Se nas escolas com excelência comprovada o retorno sobre o investimento já leva um bom tempo, investir no curso errado é um caminho quase certo de malversação de recursos. “O mercado está cheio de gente que enche o currículo de títulos sem nenhum critério”, afirma Jane Assis, sócia da High Flyers, empresa carioca que identifica jovens com potencial de crescimento na carreira. “Eles acham que serão automaticamente considerados bons, mas na verdade estão jogando dinheiro fora.”

Mesmo quando a instituição é acima de qualquer suspeita, é preciso saber o momento certo de cursá-la. Uma pós-graduação, um curso de extensão universitária e o MBA são recomendados para quem já galgou alguns passos na carreira, alguém que possa trocar experiências com os colegas de classe. “De nada adianta gastar uma fortuna em cursos e, numa entrevista, não saber contar nada além da vida no campus, não ter nada a dizer sobre a experiência profissional”, diz Júlia Alonso, diretora da Passarelli Talentos, empresa de recolocação de jovens executivos.

Quem é quem — Com as faculdades, a cautela deve ser a mesma. Em termos estatísticos, a cada semana uma nova escola superior particular é inaugurada no Estado de São Paulo. No Brasil, já são 1 200 instituições de ensino de terceiro grau e 8 800 cursos superiores, de acordo com o Ministério da Educação. No último Provão, apenas 30% das faculdades avaliadas tiveram notas A e B. “As empresas sabem quem é quem no mercado educacional”, afirma Conrado Schlochauer, sócio da SSJ, empresa de treinamento na área de negócios para recém-formados e jovens executivos.

Antes de fazer a matrícula numa faculdade, todo mundo deveria comparar o custo total do curso e o salário estimado para o início da carreira escolhida. A idéia é saber em quanto tempo o diploma se paga. Quem fizer as contas e suspeitar de uma roubada tem uma opção. Existem bons cursos de nível técnico, que tendem a ser cada vez mais valorizados no Brasil, como já acontece na Europa e nos Estados Unidos. Essa área evoluiu muito nos últimos anos. Hoje há cursos técnicos em praticamente toda área do conhecimento: design de interiores, hotelaria, gestão ambiental, terapias alternativas...

Ao todo, são mais de 50 cursos. Alguns oferecem perspectivas de colocação no mercado que podem ser mais interessantes do que uma faculdade (principalmente se for uma daquelas chinfrins). Um exemplo concreto: o curso técnico de processamento de dados ou técnico em informática custa entre 4 000 e 10 000 reais e o salário inicial é de 1 200 reais, em média, segundo o Guia do Estudante, publicado pela Editora Abril. Já o custo de um curso completo de psicologia varia entre 35 000 e 50 000 reais e o salário inicial da profissão é de 800 reais.

“Hoje muitos técnicos têm excelentes chances de brigar pelo mercado de trabalho”, diz Francisco Aparecido Cordão, responsável pela assessoria técnica de educação do Senac, considerada uma das mais tradicionais escolas técnicas do Brasil. A técnica em hemoterapia Silvia da Costa Silva, 28 anos, conta que duas semanas de estágio foram suficientes para que ela fosse efetivada no Hospital Israelita Albert Einstein, uma referência em hospitais da América Latina. Trabalhando no banco de sangue do hospital, ao lado de biomédicos com curso universitário, Silvia ganha cerca de 1 500 reais, mais do que muito bacharel em início de carreira. “Fiz uma pesquisa de mercado e logo vi que essa área seria promissora”, diz Silvia, que pensa em fazer uma faculdade na área de saúde para continuar progredindo. “Mas sem pressa.”

Longe do emprego tradicional, com carteira assinada, existem alternativas interessantes. Para quem tem uma boa dose de espírito empreendedor, o negócio próprio também oferece enormes oportunidades. E a cobrança do desempenho acadêmico pode ser menos pesada. Exemplos de brasileiros que ergueram fortunas longe dos bancos escolares não faltam: o empresário Silvio Santos, o ex-rei da soja Olacyr de Mores, o empreiteiro Sebastião Camargo e o banqueiro Amador Aguiar, fundador do Bradesco, fazem parte dessa lista.

Os tempos são outros, você pode argumentar, e achar que já não é tão fácil alcançar esse status com o próprio negócio. Para quem pensa assim, uma opção é abrir uma franquia. As dez maiores franquias brasileiras exigem um investimento médio de 60 000 reais, cifra muito próxima à de um curso universitário e ainda 300 000 reais menos do que um MBA na London Business School.

Segundo o livro The Millionaire Mind, (A cabeça do milionário), sem edição em português, do Ph.D. Thomas Stanley, 32% dos milionários americanos são empresários e apenas 16% são executivos. (Os demais dividem-se entre advogados, engenheiros, arquitetos, médicos e aposentados.) Um ranking elaborado pelo autor sobre os fatores de sucesso mais comuns entre os milionários mostra que, nas primeiras posições, estão honestidade, disciplina, liderança, competitividade e disposição para o trabalho maior que a média. Freqüentar uma universidade de primeira linha aparece apenas em 23o lugar, e estar entre os melhores alunos da classe ocupa simplesmente o último posto da sua lista.

“Muita gente passa a vida cuidando dos negócios das outras pessoas e enriquecem apenas essa pessoa”, diz o americano Robert Kyosaki no livro Pai Rico Pai Pobre — O que os Ricos Ensinam a Seus Filhos sobre Dinheiro. Segundo o livro, seu pai, que era instruído e inteligente, com Ph.D. e passagem pelas melhores escolas americanas, terminou pobre. E o que nunca concluiu o segundo grau aparece como o pai rico do amigo do autor. Vendendo essa idéia um tanto polêmica, o livro tornou-se um best-seller no Brasil com cerca de 27 000 cópias vendidas.

Teoria na prática — O que essas histórias ensinam? Que, sejam patrões, sejam empregados, o mercado de trabalho só acolhe mesmo pessoas criativas, capazes de liderar equipes e gerar resultados. São qualidades que podem ser desenvolvidas numa boa escola, mas o diploma por si só não transfere automaticamente esse perfil a alguém que não o possua. “Para se manter na empresa é preciso saber usar na prática o conhecimento adquirido”, diz o headhunter Augusto Carneiro, diretor da Korn Ferry, multinacional de recolocação de executivos.

Um diploma abre portas, sim, mas não é sinônimo de lugar garantido. Depois de gastar cerca de 75 000 dólares num MBA em Rochester (21o lugar na lista da Business Week), Luiz Henrique Tupinambá, 32 anos, demorou mais de três meses para encontrar emprego. Foi contratado como consultor de marketing pela Itaú Seguros, mas há pouco mais de um mês saiu para participar de um negócio novo na área de telecomunicações. O projeto não foi para a frente e Tupinambá, formado pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, estava sem emprego até o fechamento desta edição. “Financeiramente, vou demorar para conseguir o retorno do que investi”, diz ele. “Mas estou consciente de que é algo de longo prazo.”

Um MBA digno do nome, feito nas melhores escolas do mundo, continua sendo uma prova irrefutável de que o candidato passou por uma seleção extremamente rígida, sobreviveu a um pesado esquema de estudo e a um ambiente muito competitivo. Mas já não é garantia de salários tão altos e uma chuva de ofertas como foi no passado. “Muita gente da classe seguinte à minha ainda não conseguiu um emprego à altura desse investimento”, afirma Cristina Penteado, que terminou o MBA na Universidade de Chicago em junho e está trabalhando no banco Morgan Stanley. “Acho que conseguir uma posição definitiva será mais difícil para os novos formandos.”

Segundo Luis Felipe Verdi, co-presidente do Clube de Ex-Alunos de Kellogg (segunda colocada na Business Week), o número de ofertas para quem acaba o MBA realmente está diminuindo e a chance de um brasileiro receber proposta para ficar nos Estados Unidos, como acontecia com mais freqüência antes, é menor. Não bastasse o desencanto com a Internet — que seduziu muitos MBAs no ano passado —, com a desaceleração econômica nos Estados Unidos e no Brasil as consultorias, consideradas como principais recrutadores de MBAs, colocaram o pé no freio. Na Booz Allen & Hamilton, por exemplo, quem recebeu uma proposta só deve começar a trabalhar no final deste ano ou início do próximo.

Dólar x real — Portanto, antes de vender seu carro ou seu apartamento e acumular mais uma boa quantia para embarcar rumo a um MBA internacional e investir, em média, 300 000 reais entre curso, material, alimentação e hospedagem, é bom pensar duas, três vezes. Embora as escolas internacionais divulguem em seus sites salários anuais médios de 80 000 a 100 000 dólares, o que representaria entre 16 000 e 20 000 reais mensais, esses valores são incompatíveis com o mercado brasileiro. Segundo cinco grandes empresas de recrutamento ouvidas por Meu Dinheiro, o salário de quem sai de um MBA internacional hoje pode oscilar entre 6 000 e 13 000 reais, conforme as características pessoais e a experiência de trabalho anterior ao curso. Ao avaliar o retorno sobre o investimento, ou seja, comparando-se o salário ganho após o diploma e o valor total gasto, agora pode ser um bom momento para considerar os MBAs brasileiros. Os bons, claro. A banalização da sigla no Brasil fez com que as empresas ficassem mais seletivas. De nada adianta fazer um daqueles cursos que passam a anos-luz da excelência de ensino das tradicionais instituições que formam mestres em gestão há décadas. Só serve mesmo se for de uma escola de primeira linha tanto aqui quanto fora. “Se for para gastar uma fortuna num MBA de fora não tão conhecido, é melhor fazer um bom MBA aqui”, diz o headhunter Dárcio Crespi, sócio da multinacional de recrutamento Heidrick & Struggles. Uma grande vantagem é que dá para continuar trabalhando durante o curso, já que não exige período integral como os internacionais.