Os melhores da turma

Pesquisa do Ministério da Educação aponta os hábitos saudáveis dos chamados bons alunos

Monica Weinberg
Egberto Nogueira

Calouros festejam ingresso na universidade: renda familiar e formação dos pais fazem diferença no resultado


Veja também
Mais informações sobre o provão em VEJA Educação

O Ministério da Educação preparou um levantamento para conhecer o que há em comum no comportamento dos universitários que são considerados bons alunos – e identificar hábitos que se repetem no grupo dos que podem ser tidos como maus alunos. Algumas das conclusões do trabalho:

.Os maus alunos estudam muito menos que os bons alunos – em média, dezessete minutos por dia quando estão em casa.

.Os bons alunos obtêm informações por meio de jornais e revistas. Os maus alunos informam-se preferencialmente pela televisão.

.Os maus alunos não possuem conhecimento algum de inglês. Os bons alunos têm domínio pelo menos parcial do idioma.

.Os bons alunos leram pelo menos seis livros por ano durante a fase universitária, sem contar a leitura obrigatória de sala de aula. Os maus alunos leram um livro a cada ano e meio.

O trabalho foi elaborado com base nos resultados do Exame Nacional de Cursos, o teste que examina o nível dos universitários formandos, mais conhecido como Provão. O estudo sobre as características em comum dos bons e maus alunos concentrou-se no comportamento dos matriculados do curso de administração que se formaram em 2000. A escolha dessa carreira se explica pela amplitude do curso. Opta por administração um de cada oito inscritos no vestibular. Constatou-se ainda que a administração concentra uma amostragem significativa das diversas classes sociais. Os resultados encontrados são úteis porque funcionam como um alerta sobre o que fazer e o que evitar em nome do bom desempenho nos estudos. Preocupar-se com isso é bom para quem ainda vai fazer o vestibular e para os que já estão na faculdade. Nunca é tarde para aprender a se diferenciar num mundo cada vez mais competitivo.

Levando-se em conta apenas os grandes números, 4 milhões de brasileiros farão vestibular no fim deste ano e apenas 1 milhão terão direito a uma vaga. Ou seja, na média, são quatro candidatos por vaga. Quando se analisam as faculdades mais concorridas, há casos em que a competição chega a ser de quarenta, sessenta ou oitenta candidatos por vaga. Numa fase seguinte, depois que os alunos concluem a graduação, chega a hora de arrumar um emprego. Se a opção for pelo serviço público, há provas disputadíssimas. O concurso do Banco do Brasil já chegou a registrar 1,5 milhão de inscrições para concorrer a 9.000 vagas. São 170 candidatos por vaga, quatro vezes mais que no vestibular para medicina na Universidade de São Paulo, um dos mais disputados do país. Se o recém-formado quiser uma oportunidade no mundo privado, a vida é igualmente dura. Observe-se o exemplo da Ericsson, multinacional do setor de telecomunicações, que recebe por ano uma média de 6.000 inscrições para as vinte vagas de seu programa de trainees. São 300 candidatos por vaga.

Quem investir na eliminação ou diminuição de alguns hábitos negativos, como os detectados no estudo, pode aumentar as chances nessas batalhas. Ler mais, por exemplo, é um bom começo. O levantamento do governo mostra que 70% dos alunos que tiraram nota ruim no Provão tinham em comum o fato de ter lido apenas três livros durante o curso inteiro, além daqueles indicados na sala de aula. Outra boa providência é dedicar alguma atenção aos estudos em casa, repassando o que foi aprendido na faculdade naquele dia. O trabalho mostra que os piores alunos no Provão estudavam no máximo 25 minutos por dia. É muito difícil apontar uma regra que defina qual é o tempo mínimo diário necessário para que os alunos revejam o que aprenderam em sala de aula. Lucas Martins Zomignani Mendes, 18 anos, que foi o primeiro colocado em três dos mais concorridos vestibulares do país no começo do ano, o da Universidade de São Paulo (USP), o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), não estudava muitas horas por dia. Conforme a matéria, e dependendo do dia, dedicava a isso entre quinze minutos e duas horas. Para os especialistas, um bom aluno deve se esforçar para um mergulho de uma hora a uma hora e meia todos os dias, com direito a folga nos fins de semana.

A pesquisa mostra que não são apenas os hábitos que interferem no desempenho escolar. Os chamados fatores socioeconômicos têm um impacto importante no resultado final. A renda familiar do estudante e o nível de escolaridade dos pais são dados fundamentais. A maioria dos alunos que cravaram as melhores notas no Provão pertence a famílias com renda mensal entre 2.000 e 10.000 reais e tem pais com diploma de ensino superior. A boa notícia nesse campo é que 20% dos alunos com condições socioeconômicas ruins conseguiram estar entre os mais bem-sucedidos na prova. "O trabalho tira o determinismo que diz que um aluno pobre não tem chances de estar entre os melhores e mostra que o esforço próprio pode ajudar", observa a autora da pesquisa, Helena Sampaio, especialista na área de ensino superior.

O Ministério da Educação tem aproveitado o Provão como oportunidade para conhecer mais a fundo o estudante e, eventualmente, propor ações tópicas capazes de melhorar a qualidade do ensino no país. Tal análise é útil, portanto, para orientar o trabalho pedagógico de professores e reitores. Mas não é só isso. Os dados do ministério funcionam também como uma fonte de informação rica a respeito da forma como os estudantes raciocinam. Num levantamento recente realizado com números do Provão, descobriu-se que os estudantes convivem com uma contradição entre o que dizem, quando entrevistados, e o que fazem. Quando são chamados a avaliar a faculdade onde estudaram, são extremamente críticos. Reclamam da falta de computadores, queixam-se da baixa qualificação dos professores e condenam o nível das bibliotecas, para citar alguns exemplos. No momento em que se pergunta a eles se aproveitam uma parte do tempo livre para compensar as deficiências da faculdade, a resposta é não.

 

Características em comum

Conheça alguns pontos positivos encontrados no perfil dos universitários que tiraram notas boas no Provão, segundo o estudo do Ministério da Educação. Entre os campeões, a maioria:

estuda mais de três horas semanais

lê livros que não apenas os exigidos em sala de aula

tem bom domínio do inglês

é leitora assídua de jornal

faz uso freqüente do computador


Fonte: Veja, ediçao 1753, 29/05/2002, paginas 64 e 65