RELAÇÕES PÚBLICAS 

 

ALÉM DA AMABILIDADE, SIMPATIA E VOCAÇÃO

 

A mocinha recém graduada no 2o. grau está contente. Bonita, ativa, desembaraçada, trabalhadeira e simpática, conseguiu preencher os requisitos para um magnífico  emprego de relações públicas numa grande firma, e agora esta atendendo pessoas, prestando informações e ajudando nas vendas externas. Enquanto isso como em todo ano, o  relações públicas de uma de nossas maiores (ou menores) escolas de samba - escolhido entre os sambistas de melhor fala e sorriso - se prepara para representá-la junto a autoridades e imprensa

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Situações como estas vêm ocorrendo há muitos anos. E com tal regularidade que ainda hoje poucos imaginam que aquelas pessoas possam estar atuando sob uma terminologia irregular.

Mas, porque estariam, se aqueles casos se tratavam realmente de relacionamentos com o público?

Apesar de não ser um fato muito  divulgado, a profissão de relações públicas é reconhecida por lei há exatamente dez anos, estando seu exercício regulamentado por decreto desde l968, quando foi qualificada como de nível superior, equiparada às profissões de médico, advogado, jornalista, engenheiro e outras tantas.

O mau emprego do termo “relações públicas” está causando inúmeros problemas para os verdadeiros RP que, em número ainda inferior a mil, estão no exercício legal da profissão. Para evitar comparações errôneas, alguns deles começaram a abandonar aquela denominação, substituindo-a por expressões eufemistas como “assessor de comunicação social”, “técnico de comunicação social”, “press relations”, “técnico  em propaganda social”, “assessor de imprensa” etc.

Mas todos esses problemas não estão passando desapercebidos por outro grande número de profissionais. Eles têm se reunido freqüentemente, e resolveram iniciar uma ampla campanha de esclarecimento público para reencontrar o respeito e a identidade de sua ocupação. Esta campanha culminou, nos últimos dias, com a sugestão de formação de um Sindicato de Profissionais de Relações Públicas, como mais uma tentativa de fortalecer a classe e conseguir proteção para o desempenho legal da atividade.

Samuel Szerman, um dos mais dedicados nesta campanha, considera a criação de meios mais eficazes de fiscalização tão importante quanto a conscientização pública. Ela afirma:

- Acredito que haja um pouco de má fé nestas ofertas de emprego para “relações públicas”, quando a função desejada é a de vendedor. Muitas vezes, as empresas pretendem fugir da palavra vendedor, que está desgastada, apesar de ser uma profissão muito honrada, para atrair pessoas desavisadas.

Estes casos não podem ter justificativas. Mas quando um clube ou escola de samba fala no seu RP, creio que seja mais por desconhecimento do assunto. Eles acham que aquela pessoa tem jeito para fazer visitas, solicitar auxílio, enfim, simplesmente amaciar relacionamentos.

Szerman não crê que estas pessoas devam ser impedidas de atuar, “já que têm vocação - parte importante mesmo em nosso trabalho”.

- Ninguém é proibido de ser bem educado ou bem relacionado - ressalva ele - mas não podem usar um nome que é privativo nosso por lei. Se quiserem, considerem-se “divulgadores” ou “representantes sociais” do clube ou da escola.

O Comandante Roberto Carlos do Vale Ferreira, presidente do Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas, órgão responsável pela fiscalização do exercício da profissão, e no qual todo relações públicas é obrigado a estar registrado, acredita que muitas das empresas que se utilizam daqueles anúncios o fazem de boa fé, por desconhecer a lei. Mas ressalva:

- Embora haja um principio de direito de que “a ignorância não justifica o erro”, precisamos ser compreensivos, porque a lei é relativamente recente. Além do mais dispomos de poucos recursos para desenvolvermos a fiscalização. A partir deste mês, porém, contaremos com universitários de Relações Públicas estagiando no Conselho e eles nos auxiliarão nesta atividade, como principais interessados na regularização da profissão e do mercado.

Atualmente, as medidas tomadas contra os infratores não são muito drásticas. Em principio, o Conselho se dirige à empresa, seja através de visita pessoal, ou mandando expedientes, alertando sobre o erro e anexando a legislação. Na hipótese da carta não ser atendida, e o delito repetido, a lei prevê que o Conselho possa mover uma ação contra o infrator e aplicar-lhe as devidas multas. “E cada vez  menos iremos perdoar os que reincidirem”, diz o Comandante Vale Ferreira.

- Não está certo que uma função real de RP seja ocupada por alguém, agindo sob outro nome, não capacitado. Tudo isso enfraquece o conceito da profissão. Muita gente se engana ao pensar que o simples fato de mudar o título de RP para “comunicação social”
 ou outro, estará resolvendo o problema. O que importa é o conteúdo da atividade. Se o Conselho caracterizar a atuação suspeita, sob qualquer rótulo, como de Relações Públicas, poderá fazer agir a legislação.

 

 

AUSÊNCIA DE CRITÉRIOS E PLANEJAMENTO

Segundo Edson Schettini, secretário-geral do Conselho e Presidente da Associação Brasileira de Relações Públicas, todas as dificuldades que a profissão enfrenta “se devem em parte à falta de tradição do empresário e do comerciante brasileiros em seguir uma mentalidade de ação baseada nos preceitos de relações públicas”. Ele continua:

-  Muitos ainda não acreditam nos resultados de um trabalho de RP, por não saber que esta é uma profissão de nível superior, que exige esforço e conhecimento na formação de seus titulares. O brasileiro esta desacostumado a pensar em soluções  a médio e longo prazo, e se lançam em empreitadas sem planejamento, diretrizes e critérios de seqüências, tendo apenas preocupações imediatistas. Mas as medidas de RP são altamente preventivas e um trabalho bem feito seguramente trará  magníficos resultados com o tempo.

Samuel Szerman também tem verificado que a empresa privada brasileira ainda não se livrou totalmente da idéia de que Relações Públicas é a mocinha bonita que acompanhará ou substituirá o chefe atendendo como recepcionista mais desenvolta. Mas tanto Szerman quanto Schettini acreditam que este conceito mudará brevemente, “graças à nova mentalidade empresarial trazida pelos dirigentes das multinacionais, que forçará o brasileiro a seguir o exemplo para enfrentar a concorrência”. Eles também consideram que a ausência desta visão, até hoje, tem prejudicado em muito o desenvolvimento do próprio.

Mas em que consiste esta atuação profissional de Relações Públicas, de tão milagrosos efeitos?

Quem responde é Edson Schettini, dando a definição oficial da ABRP:

- Relações Públicas é a atividade e o esforço deliberado, planificado e contínuo para estabelecer e manter compreensão mútua entre uma instituição pública ou privada e os grupos e pessoas a que ela esteja ligada, direta ou indiretamente. O profissional de RP, em certos aspectos, é quase como um radar ou uma bússola para o dirigente de uma entidade. Através de planejamentos técnicos, ele terá todas as condições de verificar os anseios e preocupações de uma comunidade em relação ao comportamento de um produto ou sua empresa. A partir daí, ele orientará para os caminhos a serem tomados visando conquistar a confiança do público.  

O público, aliás, foi a razão do nascimento das Relações Públicas  (como o nome indica...). Seu conceito se fortaleceu através de campanhas contra todos os excessos praticados por empresários e políticos americanos contra o povo, ainda no final do século passado.

O conceito de que o povo deveria ser informado de tudo o que se passava cresceu rapidamente entre os dirigentes no Estados Unidos, sendo constantemente cobrado pelo povo. Sua não-observância ajudou a derrubar Richard Nixon e as promessas de seu cumprimento foram importantes fatores nos debates Ford x Carter, na campanha presidencial, quando o atual presidente se mostrou mais favorável a total informação e preocupação com o público.

Paradoxalmente, a profissão de Relações Públicas não está regulamentada naquele país, tarefa que coube primeiramente ao Brasil. É curioso, porém, que o primeiro RP brasileiro - Eduardo Pinheiro Lobo -  tenha sido contratado, em 1914, pela The São Paulo Tramway, Light  and Power Co. Ltd., hoje, Light - Serviços de Eletricidade, através de um edital redigido em inglês.

O exemplo do Brasil, regulamentando a profissão, já está sendo seguido por outros países, e como lembra Samuel Szerman, que também é professor de RP nas faculdades de comunicação Hélio Alonso e de Campos, veio modificar um outro conceito antigo das Relações Públicas. Ele explica:

- O Brasil fez com que a definição americana de que Relações Públicas  “é a atividade de todos”, passasse a ser “a atividade do profissional com a colaboração de todos”.

E a luta pelo respeito a este profissional, na opinião de seus participantes, está apenas começando. Eles afirmam que o mercado está longe de ser esgotado, e a conscientização do empresariado brasileiro possibilitará a absorção de todas as dezenas de Relações Públicas  que se formam semestralmente nas faculdades de comunicação brasileiras, seja através de estágios inicialmente, como no campo profissional.

E, conforme tranqüiliza o Comandante Vale Ferreira:

- No dia em que isto acontecer, seguramente teremos deixado de encontrar também, todas aquelas ofertas irregulares de cargos para falsos Relações Públicas.

 

Fonte: Jornal O Globo, pg. 36 - 22/7/1977, por Marcos Sidnei Ehrlich- Matéria cedido gentilmente pela Presidente da Federação dos Profissionais de Relações Públicas, Anna Telma Wainstock em julho de 2003