RELAÇÕES PÚBLICAS NA REABERTURA DEMOCRÁTICA:

A PROFISSÃO ESTÁ PREPARADA PARA CRESCER?

 

Nemércio Nogueira, CONRERP/SP – 304

 

Vem-se notando claramente nos últimos dois ou três anos um manifesto aumento de interesse de parte do mercado de trabalho pelos profissionais de Relações Públicas. Empresas que atuam há décadas no Brasil - e que sempre encararam o “RP” como um fazedor de festinhas mais ou menos inócuas, ou, na pior das hipóteses, como um simples quadradinho no organograma – mostram-se subitamente interessadíssimas em atrair para seus quadros bons profissionais do setor.

Dessa constatação, duas perguntas decorrem imediatamente: em primeiro lugar, cabe indagar qual a razão desse inesperado interesse. Por outro lado – e supondo que tal tendência se confirme nos próximos anos – é o caso de olhar criticamente para nossa profissão, inquirindo se estamos realmente preparados para preencher esse mercado de trabalho mais amplo e melhor, pelo qual tanto lutamos e que tanto reivindicamos. Ou se estaremos em vias de perder essa oportunidade de ouro, em favor de pessoas não legalmente registradas, ou seja, não devidamente registradas nos CONRERPs.

 

Democraria, a “raison d’être” de todos nós – Se nos perguntarmos, inicialmente, qual a razão do interesse aparentemente súbito do mercado de trabalho pelos profissionais de Relações Públicas, notaremos que esse fenômeno se explica pelo processo de retorno do Pais à democracia, que, como se sabe, é o único sistema em que viceja a nossa profissão – que necessita dela.

Claro, pois, que num regime centralizado e fechado, em que as decisões governamentais são tomadas por uma equipe de duas ou três pessoas, o que predomina são as relações pessoais (e não públicas, isto é, com grupos sociais). Em outras palavras, a empresa ou entidade que tem necessidade de informar o Governo, solicitar-lhe alguma informação ou advogar seus interesses junto aos centros de decisão, num país ou num momento histórico em que predomina uma situação de fechamento ou centralização governamental, só precisa ter, em seus quadros, alguém que se relacione bem com aquelas duas ou três pessoas que exercem de fato a função governamental.

Numa situação, porém, em que predomina a democracia, ou seja, onde o pluralismo social tem condições de se manifestar livremente, até mesmo nas áreas governamentais – como acontece hoje no Brasil – os contatos apenas pessoais não são suficientes para resolver o problema de relacionamento da empresa ou entidade com seus vários públicos. Requer-se, isto sim, um trabalho profissional, sistemático e organizado de relações públicas, ou seja, de relacionamento corporativo (e não apenas pessoal) com a grande quantidade de pessoas integrantes do segundo e terceiro escalões governamentais, com os parlamentares, a nível federal, estadual e municipal, com as autoridades e líderes político-administrativo, dos quais depende, em maior ou menor grau, qualquer decisão governamental.

 

Liberdade de imprensa, a voz livre da opinião pública – Paralelamente, num cenário em que a imprensa é censurada, ou emasculada por medidas não oficiais, o profissional de RP torna-se desnecessário, pois, onde não há promotor, prescinde-se do advogado de defesa.

Quando, porém, predomina a imprensa livre – o que voltou a suceder no Brasil de uns dois anos para cá – passam as empresas e entidades a necessitar do trabalho profissional, sistemático e organizado do especialista em Relações Públicas, para servir como seu intérprete, advogado, azeite na máquina do seu relacionamento com os jornalistas.

Isso porque só o profissional de RP entende – ou deve entender – os dois lados do diálogo (a empresa e o jornalista), de maneira a poder efetivamente auxiliar ambos a se comunicar bem, com o mínimo de mal-entendidos e o máximo de abertura e franqueza.

Voltando à comparação anterior, quando se vê uma época em que a imprensa se encontra arrolhada, impossibilita de criticar e mesmo de divulgar críticas feitas por outrem, é claro que se torna desnecessário o profissional cuja função é criar compreensão entre os jornalistas e as empresas ou entidades, para que, ainda que criticadas, elas possam ser ouvidas e tenham também divulgada a sua visão ou justificativa. Numa situação como essa, em que a imprensa se encontra amordaçada, é suficiente um “assessor de imprensa”, cuja função consiste geralmente em agradar jornalistas e fazer com que a imprensa publique notícias favoráveis à empresa ou entidade para a qual trabalha. E, desde que os seus “press releases” sejam razoáveis, o sucesso não é muito difícil, pois, sob o domínio da censura, os veículos de imprensa ficam com espaço sobrando, para noticiário anódino.

Quando vigora a liberdade, a situação é bem outra, pois os órgãos de imprensa têm liberdade para exercer sua eminente função social de revelar, criticar, denunciar, - de modo que pagar um drinque para um jornalista de vez em quando deixa de ser suficiente. Por outro lado, o espaço para publicação de “press releases”  de conteúdo desimportante volta a ser muitíssimo escasso.

É aí que, para sobreviver e progredir na profissão, como dizem os espanhóis, “hay que tener talento”- o que, traduzido livremente para o português, significa “é ai que a porca torce o rabo” e, em inglês “bullshit is no longer enough”.

 

Trabalhadores, estudantes, Igreja etc. – as forças sociais às soltas – As áreas político-administrativas e a imprensa não são, porém, os únicos vetores deste nosso modelo; todas as forças sociais, numa democracia, têm o direito, senão o dever, de fazer ouvidas suas vozes, pois, em termos sociológicos, não são mais nem menos que grupos de pressão, que tem expresso no próprio nome seu dever de pressionar no sentido de que suas posições sejam adotadas pela sociedade como um todo.

Assim é que os trabalhadores (através de seus sindicatos, ou não), os estudantes, o clero, os ecologistas, os movimentos de defesa do consumidor e até mesmo os que lutam para provar  que Shakespeare nunca existiu passam, num regime democrático, a exprimir livremente suas idéias, uns querendo gritar mais que os outros, para promover seus interesses.

E aqui, mais uma vez, o sobrenome altissonante, o freqüentar colunas sociais, o paparicar jornalistas paparicáveis, o conseguir audiências com ministros, o saber segurar com aplomb um copo em coquetéis, deixam de ser suficientes. Nessa situação, é preciso trabalhar, e trabalhar duro, ativamente, criativamente, intensamente, para cumprir o papel reservado pela sociedade, pelas empresas e entidades, aos profissionais de Relações Públicas.

 

Estaremos preparados? Pergunte isso a si mesmo, jovem bacharel – Vamos agora à grande pergunta: os profissionais de RP, do Brasil, têm condições, se considerados em conjunto, de desempenhar tais funções?  Afinal, em todas as conferências, aulas, artigos e livros sobre relações Públicas, sempre se lê que a função de RP precisa estar situada no mais alto nível da empresa, que deve participar de todas as decisões de Diretoria, que deve ser ouvida pela Presidência etc.  Teremos condições para exigir isso?

Minha opinião – ao completar 20 anos de atividade em Relações Públicas, Jornalismo e Publicidade; após ter sido, durante dois frenéticos anos, presidente do CONRERP/SP; depois de ter feito dezenas de conferências – é de que infelizmente falta muita coisa para chegarmos lá.

Tenho plena certeza de que essa afirmação causará, naqueles que me lêem, muita estranheza,pois sempre primei pela defesa de nossa profissão – e, imodesta mas realisticamente, tenho consciência de que poucos fizeram o que fiz para divulgar, promover e implantar  a Profissão de Relações Públicas.*

Tenho, portanto, a consciência muitíssimo tranqüila e, da mesma forma pela qual defendo e promovo a profissão em todas as oportunidades, sinto-me também à vontade para gritar, neste momento – e talvez muito tarde – “o rei esta nu.”. Acredito que, ao assim agir, estarei prestando um serviço a nós mesmos, pois espero que nossos dirigentes, nossos professores, nossas escolas e nossos lideres profissionais ouçam o grito e tratem de comprar alguma roupa para Sua Majestade, para que ele não passe frio.

 

Seis razões pelas quais não estamos preparados – Para que este artigo não se torne muito longo, vamos aos “finalmente”, enumerando analiticamente os principais problemas que, a meu ver, emperram nossa evolução profissional – e que estão ai para quem tiver olhos para ver.

 

     l. Somos incultos. Os bacharéis que saem de nossas escolas de Relações Públicas não sabem,   

     regra geral, escrever português, não  sabem encadear um texto, não têm conhecimento 

     humanístico, não lêem. (Eu sei que os cursos médios deixam a desejar, eu sei que o estudante

     deve aprender Português e Lógica antes de chegar à faculdade, eu sei de tudo isso. Os

     professores e diretores de cursos de RP não precisam, portanto, alegar essas justificativas. 

     Estou apenas fazendo uma constatação de fato).

 

     2. Vivemos falando em participar da alta direção das empresas, mas não temos qualquer

     preparo para uma coisa chamada administração de empresas. E o mundo dos negócios, das

     finanças, da produção, do marketing, é totalmente desconhecido dos bacharéis em RP. (Eu sei

     que RP faz parte do curso de Comunicação e não de Administração. Mas você não acha que

     fica meio tolo insistir em ser dirigente de empresa, quando não se conhecem aquelas  

     técnicas?)

 

     3. Não temos vivência jornalística. Não sabemos como pensa um jornalista. Não fazemos

     estágios em redação de jornal. Não sabemos escrever um “press release”, decente. (Eu sei que

     quem escreve “press release” e “house-organ” é jornalista, e não profissional de RP, portanto

     não precisa justificar-se, jovem bacharel que me lê. Mas você há de concordar que, para saber

     mandar fazer, é preciso antes saber fazer, não?)

 

     4. Não temos vivência publicitária. Não sabemos fazer uma campanha de propaganda. Não

     fazemos estágio de propaganda. Não fazemos estágio em agências. E até insistimos em olhar o   

     publicitário com um ar de superioridade - em que não se consegue disfarçar, porém, a dor de

     cotovelo inspirada pelos salários maiores que os publicitários conseguem e por sua vez maior

     relevância profissional..(Eu sei que quem faz anúncio é publicitário e não profissional de RP.

     Mas, se insistimos em afirmar que Relações Públicas é a função superior no organograma da

     empresa, como dirigir o trabalho de publicidade, se não o conhecemos?).

 

     5. Nossas entidades profissionais, com raras e honrosas exceções, são o reflexo exato desse

     despreparo geral. Nosso Conselho Federal é tristemente inoperante e inexpressivo, chegando a

     envergonhar. Lembro-me, a propósito, de um episódio constrangedor em que me vi envolvido,

     quando, munido de uma pilha de documentos, visitei Brasília o então futuro ministro Said

     Farhat, para encarecer junto a ele a necessidade de contratação pela SECOM, de profissionais

     de RP devidamente registrados.

 

     Pois não é que um dirigente do Conselho Federal “pegou carona” na minha audiência (porque

     não conseguira marcar uma para si próprio) e me deixou de cara no chão, ao entregar a Farhat

     uma carta em que ditava o futuro ministro qual a estrutura que seu Ministério deveria ter?... A

     coisa foi de uma petulância só menor que a  insensibilidade e a impropriedade do tal dirigente.

     (Eu sei que os dirigentes são eleitos pelos próprios profissionais, e sei também que cada povo

     ou grupo social tem os governantes que merece. Mas será que nos merecemos isso?).

 

     6. Não conhecemos línguas, apesar de sabermos que, em português, só há um ou dois livros de

     interesse sobre RP e termos consciência de que as empresas que levam a sério o nosso     

     trabalho são as multinacionais, que exigem dos profissionais que falem e escrevam inglês.

     (Eu sei que o curso de RP não tem a obrigação de ensinar línguas, mas acho que quem

     pretende ser profissional do setor precisa saber pelo menos inglês. Por exemplo, você já leu

     “The third wave”, do Alvin Toffler? Pois é uma leitura essencial para qualquer profissional de

     RP que se preze).

 

A saída! Onde esta a saída ?   Sei lá. Que existe saída, disso eu tenho certeza. Mas acho que ela só será encontrada se a profissão como um todo se conscientizar desses problemas e mazelas (que realmente existem, não são má vontade minha, infelizmente) e assumir a luta contra eles. Nossos cursos, por exemplo, precisam formar profissionais de verdade, que saibam efetivamente atuar, e assim, tornar a função de RP realmente relevante dentro das empresas. E não produzir gente que fique a discutir se a abreviatura certa é RP ou RRPP, se o nome é profissional de Relações Públicas ou Relator Público, e bobagens semelhantes.

É contristador ouvir, como tanto se ouve, principalmente de estudantes e jovens recém-formados, a alegação de que “os empresários não compreendem a importância da profissão”. Acontece que, ao contrário do que acham os que dizem essa tolice, os empresários não são bobos e sabem  muito bem que a função de RP é importante. O que eles não sentem é que os profissionais tenham condições de desenvolvê-la.

E é por isso que, apesar da gritaria inócua dos bacharéis, os principais cargos de RP do Brasil continuam sendo preenchidos, na melhor das hipóteses, por provisionados; e, na pior, por pessoas de outras profissões. Ao invés de lutar contra os provisionados – que são cada vez em menos número, porque os bacharéis e estudantes não lutam para melhorar os currículos escolares e não se preocupam em aprender a trabalhar?

Esse é, sem dúvida, um dos caminhos, talvez o mais importante, para encontrar a saída. Mas há  outras coisas que precisam ser feitas – e uma delas é a conscientização da importância da atuação dos Conselhos Federal e Regionais. Tais órgãos, mais a ABRP, são fundamentais para o crescimento da profissão; e seus dirigentes precisam ser eleitos entre os melhores e mais atuantes profissionais; devem ser pessoas que tenham representatividade e que se imponham. E não podem ser “dirigentes profissionais”, que se especializam em ser próceres de tais entidades, encastelando-se, eternizando-se, petrificando-se, e inutilizando-as.

Aí estão algumas sugestões de caminhos para a saída. Espero que os jovens bacharéis e estudantes tenham clarividência e sabedoria para encontrá-los e para descobrir outras sendas que a minha visão não detectou. E realmente torço e farei o que puder para que o rumo certo seja encontrado – e logo – pela profissão, pois, caso contrário, tenho certeza absoluta de que ela tem seus dias contados.

E seria uma pena que isso acontecesse pois, no momento em que o Brasil reenceta sua trajetória  democrática, o bom profissional de RP ganha relevância cada vez maior. Seria uma amarga ironia que, depois de tanta luta, nossa jovem profissão acabasse por morrer na praia. Dando razão ao dito de que “os deuses realizam todos os sonhos daqueles que desejam destruir”.

 

* Presidente do CONRERP-SP durante dois anos, há 20 anos profissional de Relações Públicas, de Jornalismo e de Publicidade, laureado com o Prêmio “Opinião Pública”, Nemércio Nogueira tem se empenhado sempre na defesa da profissão de Relações Públicas, especialmente na valorização dos Conselhos Regionais e da Lei que regulamenta a profissão.

 

Fonte: 3o Catálogo Brasileiro de Profissionais de Relações Públicas, Suplemento 4, editado pela Revista Breefing, l981.