Mercado de Relações Públicas rumo a internacionalização?

O assunto é recorrente. Vez por outra reacende-se a discussão sobre a necessidade e/ou conveniência de as agências locais se associarem às grandes redes internacionais de relações públicas, até como única forma de sobrevivência. O tema é antigo também, da época em que Burson-Marsteller, Ogilvy e Hill & Knowlton aqui se instalaram.

Todo esse tempo, de algumas décadas, foi de convivência absolutamente tranqüila e cordial entre essas grandes redes e as empresas locais. Assim, é de se estranhar o nervosismo atual com a presença de novos grupos multinacionais, especialmente na forma de participação minoritária ou associação informal, como se não houvesse espaço para todos. Pura tolice.

A presença dessas e outras redes internacionais (Fleishman Hillard, Porter Novelli, Ketchum, BSMG, GCI, Weber Shandwick, Edelman, entre outras) é muito bem-vinda, pela sua competência, experiência e potencial de oxigenação do mercado. O que se deveria estranhar é que, a todo momento, encontramos muitos fornecedores (indivíduos/empresas de RP) e clientes (de todos os tamanhos) que ainda confundem a parte do serviço de comunicação institucional (assessoria de imprensa) com o todo (relações públicas e seus sinônimos). Por ignorância ou conveniência.

Não há estatísticas confiáveis, mas estima-se que, atualmente, as relações públicas no Brasil representem um mercado de meio milhão de dólares em fees. Seu potencial deve ser três vezes maior, até pela demanda crescente dos serviços dessa área.

O mercado brasileiro cresceu, e muito, nos últimos dez anos, por alguns fatores: 1) competência das empresas locais que estão há algumas décadas nesse mercado, dirigidas por excelentes profissionais; 2) presença de agências internacionais, ricas em recursos e em inovações do ferramental de relações públicas; e 3) uma vigorosa safra de novos talentos, a partir do início da década passada, o que realmente deu o tom da tendência atual do mercado. O mérito é de todos, mas os locais, que são maioria esmagadora, merecem uma menção especial, até pela sua constância de desempenho.

As empresas multinacionais estão aqui com um apetite proporcional às oportunidades de servir seus clientes internacionais e à procura de bons negócios, como todo mundo. De um lado, há redes buscando investir ou estabelecer parceria com empresas locais. Do outro, um punhado de agências locais sendo assediado e avaliando as vantagens e desvantagens dos negócios que são oferecidos.

Há, ainda, um outro grupo de empresas de comunicação que tem se oferecido para a venda a grupos multinacionais. Curiosamente, a disposição dessas agências não tem gerado negócios. As grandes redes têm seu foco sobre algumas agências de nome e prestígio no mercado.

Quando me perguntam o que acho a respeito dessas movimentações, e se há sobrevivência sem a venda, participação ou associação informal com grandes grupos, eu costumo responder que não tenho a menor dúvida que há futuro, independentemente dessa decisão estratégica. Acrescento, também, que a sobrevivência depende muito mais da competência dos profissionais do que de ligações com este ou aquele grupo.

Não é importante contar com parcerias formais — vendendo uma parte ou o todo da empresa — ou informais, através de associações, com gente de boa reputação? A resposta é, de novo, afirmativa. Cada um tem de avaliar interesses pessoais e de seus negócios, lembrando que o mundo das relações públicas não se restringe a um pequeno grupo de ótimas empresas no Brasil e a um grupo de redes internacionais querendo comprar ou participar de empresas locais. Há dezenas de boas empresas nos Estados Unidos, Europa e Ásia, similares às nossas, que buscam parcerias com agências do mesmo porte de outras regiões.

Na hipótese de você escolher o caminho de continuar tocando seu próprio negócio, sem os eventuais benefícios, nem o calvário garantido imposto pela rígida disciplina e burocracia monumental dos grandes grupos, opte pela solução intermediária de criar um relacionamento com alguém — até uma grande rede — com interesse comum. Acredito muito nessa fórmula. De sucesso.

AgostinhoGaspar
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Revista About 27/07/2001  www.about.com.br