RELAÇÕES PÚBLICAS

CONSUMIDOR NÃO

ENGOLE, CONSOME

Isabel Rodrigues

Consumidora e cidadã são duas faces de uma mesma pessoa, mas precisam ser tratadas de forma distinta. Impossível jogá-las num mesmo saco e comunicar-se com elas usando uma única mensagem. Seus desejos são diferentes: uma anseia por produtos e a outra, por idéias. Ter consciência dessa distinção está se tornando crucial para o sucesso das empresas, que até bem pouco tempo julgavam necessário apenas encontrar o tom correto para se comunicarem com os consumidores. Feito isso, acreditavam ter andado boa parte do caminho que as levava aos seus objetivos de negócios.

Esse conceito, pensamento, idéia ou qualquer outro nome que se queira dar faz parte do passado, período em que uma nuvem negra estacionou sobre o nosso país e colocou a face cidadã numa hibernação compulsória. A face consumidora — festiva e alegre — engoliu isso e aquilo sem questionar se precisava, se era bom, se era caro, se era ético, se era... Não importa: naquela época não se discutia, apenas se engolia, ou melhor, se consumia.

Embora muitos não tenham percebido ainda, os tempos mudaram e a face cidadã está de volta, mais consciente e ativa do que antes. E, importante, com um arsenal de leis que não hesita em utilizar para defender e fazer valer aquilo que considera justo. A fase do engodo, da maquiagem está com os dias contados: chegou a hora de dar fim aos contratos com letras miúdas, às embalagens enganosas, de prometer e não cumprir, de falar e não fazer. A mentira não tem mais espaço neste novo mundo onde vivemos. Pois como dizem pelas ruas, quem quiser ficar bem na fita, tem de se ligar e mudar.

Estes novos tempos, que para aqueles que têm saudades do passado podem parecer radicais, trazem uma outra notícia: as faces consumidora e cidadã estão cada vez mais próximas, num relacionamento semelhante ao vivido pelos jovens casais em lua-de-mel. Então, é bom todos estarem preparados, pois cada vez mais vai se engolir menos. E o consumo, que deve e sempre vai existir, somente será efetivado após o consenso das faces consumidora e cidadã, depois que souberem o que, quem e como atua aquele que está por trás desta ou daquela marca.

Empresas que respeitam o meio ambiente, as comunidades, os direitos de seus funcionários, que produzem com qualidade e conduzem seus negócios de maneira sempre ética nada têm a temer. Ao contrário, a essas é que estão reservados os louros do sucesso. E por isso elas devem se manifestar, mostrar o que fazem, interagir de fato com a opinião pública, com a face cidadã. Os canais para abrir e manter esse diálogo honesto e aberto estão aí, disponíveis para todos.

Relações Públicas, disciplina nem sempre conhecida e, muitas vezes, desprezada no mix de comunicação, é a ferramenta ideal para ajudar as empresas a desenvolver e estreitar esse relacionamento com a opinião pública, a face cidadã, que pode fortalecer ou enfraquecer uma marca e/ou imagem institucional de uma empresa.
Neste novo mundo, apelidado de globalizado, a velha e decadente desculpa do nós somos low profile não cabe. Aqueles que nada têm a temer ou a esconder devem falar, porque as faces consumidora e cidadã estão andando de mãos dadas e já não engolem mais qualquer "abobrinha".

Não faz muito tempo, a mídia concedeu amplos espaços para relatar problemas envolvendo produtos de marcas conhecidas, pertencentes a grandes e tradicionais empresas. Aquelas que há tempos cultivavam bom relacionamento com a opinião pública, ou seja, tinham postura franca e aberta ao diálogo, conseguiram gerenciar com mais facilidade esse momento difícil. Aquelas com postura oposta, voltada para o próprio umbigo, sofreram não somente danos de imagem, o que por si já é gravíssimo, mas também queda no volume de vendas e, conseqüentemente, no faturamento. Agora, tentam juntar os cacos e mudar a postura, o que é muito positivo.

São sinais dos tempos; tempos de grandes e saudáveis mudanças.

Isabel Rodrigues
irodrigues@rodrigues-freire.com.br
Relações-públicas e diretora da Rodrigues & Freire Assessoria e Consultoria de Comunicação Empresarial