Volume 1, Número 1, Novembro de 2004
   
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Jornalismo Científico: uma revisão conceitual

Sérgio Bialski,
formado em Comunicação pela USP. É pós-graduado em Gestão da Comunicação pela USP; em Jornalismo Institucional pela PUC/SP; e em Comunicação Empresarial/Relações Públicas pela Cásper Líbero. É Mestrando em Ciências da Comunicação pela USP e Gerente de Comunicação da Aventis Pharma.

 


Manuel Calvo Hernando assevera que Copérnico, no prefácio dedicado ao papa Paulo III, escreveu o seguinte: " ... a matemática só se escreve para matemáticos’.

No século passado, um matemático, Georgonne, dizia: "ninguém pode orgulhar-se de ter dito a última palavra sobre uma teoria enquanto não a possa explicar em termos simples a qualquer um que encontre na rua’.

E, há alguns anos, o físico americano Robert Oppenheimer afirmava, dirigindo-se à imprensa: "esperamos dos jornais que contribuam a manter livres os caminhos da verdade e da comunicação, a fim de que os homens se mantenham de certo modo unidos num saber comum e numa humanidade comum’. "

Estas três citações resumem, para Calvo Hernando, "um largo caminho percorrido desde o conceito minoritário e quase secreto da ciência até a gostosa e unânime participação atual do homem de rua na grande aventura do conhecimento. Uma participação que não é, por suposto, satisfatória como desejaríamos, nem afeta a todos os seres humanos, como tampouco os afeta a luz elétrica, a medicina ou o alfabeto, mas que se amplia com o passar do tempo, num ritmo cada vez mais vivo e exigente. Uma participação que deverá permitir um dia completar esta trilogia de citações, com que se iniciou a exposição, com esta outra de Michel Rouzé: "não é tão quimérico esperar que um dia os conceitos que representam as fórmulas da mecânica ondulatória entrem no patrimônio do sentido comum, como entraram a dos antípodas ou do heliocentrismo do nosso sistema planetário. Uma parte desta missão corresponde ao jornalista, ao divulgador científico´ ". (1) Como se percebe, o autor utiliza como sinônimos os conceitos de jornalista científico e divulgador científico.

Vera Lúcia Santos, em seu escrito João Ribeiro como jornalista científico no Brasil (1895-1934), discordando de Calvo Hernando, diz que "alguns autores especializados em jornalismo científico costumam empregar esse termo como sinônimo de divulgação científica, com o que não concordamos. Divulgação, vulgarização ou popularização da ciência - diz ela - é a capacidade de torná-la pública, de tal forma que ela seja inteligível aos leigos, sem que isso implique necessariamente em fazer jornalismo científico". Para Santos, "a divulgação científica pode ser feita através de artigo publicado na imprensa diária ou qualquer outro meio de comunicação, e ainda em revistas especializadas, conferências ou mesmo obras. Cabe ao próprio cientista divulgar aos seus colegas o resultado de suas experiências sem a preocupação de serem entendidos pelo grande público. Quanto aos jornalistas, quando procuram traduzir a mensagem do cientista visando atingir diretamente o leitor, estão divulgando ciência, mas, sobretudo, fazendo jornalismo científico. Em ambos os casos, o que distingue o jornalismo científico da divulgação científica é meramente uma questão de objetivo com relação ao comunicador da mensagem". (2)

Wilson Bueno, refutando Vera Santos, diz: "não concordamos com esta tese. Acreditamos que os objetivos do jornalista científico e do divulgador científico não são muito diferentes: em termos gerais, ambos se preocupam em transferir aos não-iniciados informações especializadas de natureza científica e tecnológica. Na prática, o que distingue as duas atividades não é o objetivo do comunicador ou mesmo o tipo de veículo utilizado, mas, sobretudo, as características particulares do código utilizado e do profissional que o manipula. José Reis, certamente a maior expressão do Jornalismo Científico em nosso País, utiliza os termos de maneira indiscriminada, tratando-os efetivamente como sinônimos" . (3)

A intertextualidade, ao permitir-nos observar o rico confronto de pontos de vista, dá-nos também a tarefa de buscar um caminho de conciliação. A despeito do rigor conceitual de cada autor, parece haver consenso quanto ao fato de que o mau emprego da expressão original Scientific Journalism tem gerado, em nossa língua, inúmeros equívocos e confusões.

Consenso também há quanto ao fato de que o Jornalismo Científico deve apropriar-se das características enunciadas por Otto Groth para o Jornalismo: atualidade, universalidade, periodicidade e difusão. (4)

Roberto Pereira Medeiros, valendo-se dos ensinamentos de Bueno, diz que no Jornalismo Científico "a característica de atualidade é preenchida pelos fatos (eventos, descobertas) ou pessoas (cientistas, tecnólogos, pesquisadores) que estejam diretamente ou indiretamente relacionados com o momento presente; ao abrigar os diferentes ramos do conhecimento científico, o Jornalismo Científico preenche a característica da universalidade; a periodicidade se dá pela manutenção do ritmo das publicações ou matérias, certamente antes em conformidade com o desenvolvimento peculiar da ciência do que com o próprio ritmo de edificação dos veículos jornalísticos (oportunidades, segundo Groth); a característica de difusão é preenchida pela circulação do material pela coletividade à qual se destina". (5)

Manuel Calvo Hernando faz um interessante comentário ao dizer que "o jornalista científico deve ser, antes de tudo, jornalista. (...) Deverá ser jornalista e queremos significar com isto que deverá ser na mais ampla acepção da palavra. Há de ser homem completo, aberto a seu tempo, familiarizado com os problemas do mundo em que vive, dotado de curiosidade universal e penetrado nas técnicas de seu ofício informativo". (6)

Pode-se perceber que as especificidades requeridas ao Jornalismo Científico, e ao profissional que dele faz uso, aproximam-se do próprio conceito de rigor da ciência (seja no trato da apuração e análise dos dados, precisão lingüística e transmissão do conhecimento), o que, no entanto, não pode prejudicar o entendimento do receptor.

Hillier Krieghbaum, a propósito disso, dizia que "para fazer um trabalho realmente competente é necessário mais do que faro jornalístico. Um repórter científico deve estar suficientemente alerta - subentendendo-se assim um conhecimento das bases da ciência ‘pura’, da tecnologia e da medicina". (7) Segundo Krieghbaum, "o repórter científico bem preparado também precisa saber como escrever - na linguagem do homem comum". (8) Para ele, se se pretende "responder adequadamente às demandas da exatidão científica é preciso estar de posse de detalhes suficientes para reproduzir a experiência concreta e para possibilitar um julgamento científico baseado na qualidade dos resultados originais. (...) Para a exatidão jornalística ou de manchetes é imprescindível uma noção correta ou uma idéia geral do interesse das descobertas científicas para os não-cientistas". (9)

Em artigo escrito em 1988, José Reis, o divulgador da ciência, para a revista Ciência e Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Osvaldo Frota-Pessoa listou algumas regras básicas para os que atuam com divulgação científica, sejam cientistas ou jornalistas. Eis alguns dos conselhos de Frota-Pessoa:

"- Coragem para dispensar a precisão e apelar para analogias, generalizações e aproximações, e coragem para parecer, por isso, ignorante;

- Ser simples, direto e nobre (como Homero), pois sem a nobreza cai-se na caricatura da ciência, no sensacionalismo;

- Pensar maduramente no tema e no propósito da publicação, deixando o estudo sedimentar antes de escrever;

- Abdicar do jargão científico: o que interessa são fatos e conceitos e não palavras;

- Escrever de forma enxuta, sem rebuscamentos nem modismos;

- Escrever com clareza sobre o que com clareza se entendeu;

- Explicar a ciência e desmascarar a pseudociência, a partir dos fatos do dia;

- Tratar as novidades, mas também o que é maravilhosamente banal (como o desabrochar das flores)". (10)

Ao se referir à função que mais tem recebido atenção do Jornalismo Científico (a educativa), José Marques de Melo afirma que o jornalismo deve na sociedade:

"a) cumprir a atividade educativa dirigida à grande massa;

b) popularizar o conhecimento produzido nas universidades e institutos de pesquisa;

c) usar linguagem acessível ao cidadão comum;

d) despertar o interesse pelos processos científicos no público;

e) conscientizar a população que paga impostos;

f) realizar um trabalho de iniciação dos jovens ao mundo do conhecimento e da educação continuada dos adultos". (11)

Vale lembrar que Bueno sistematizou esses deveres do Jornalismo Científico em seis funções básicas: informativa, educativa, cultural, social, econômica e político-ideológica.

Em sua tese de livre-docência, defendida na ECA/USP, José Marques de Melo, ao definir Jornalismo Científico, atenta para a abrangência do conceito ao caracterizá-lo como "um processo social que se articula a partir da relação (periódica/oportuna) entre organizações formais

(editoras/emissoras) e coletividades (públicos/receptores) através de canais de difusão (televisão,

rádio, cinema, jornal, revista) que asseguram a transmissão de informações (atuais) de natureza científica e tecnológica em função de interesses e expectativas (universos culturais ou ideológicos)". (12)

Luciana Miranda Simões, citando Bueno, insere também os seguintes aspectos no conceito de Jornalismo Científico:

" a) a postura crítica do jornalista em não aderir ao movimento de alguns cientistas e intelectuais que fazem a apologia dos fatos e das informações científicas, imprimindo à ciência um caráter fetichista; b) a incorporação das ciências humanas, bem como das técnicas e processos mais simples, derrubando o preconceito de que só é considerado objeto do jornalismo científico o conjunto de teorias complexas e aplicações tecnológicas avançadas". (13)

Segundo Juan Alberto Verga, "não existe notícia melhor e mais importante do que uma descoberta científica ou um avanço tecnológico que podem, inclusive, mudar o processo histórico num determinado momento". (14) Já para Vera Lúcia Santos,o Jornalismo na área de saúde consiste "na informação de fatos, personalidades e acontecimentos relacionados ao campo da ciência, veiculada através dos meios de comunicação de massa e transmitida em linguagem acessível ao grande público". (15)

As posições de Juan Alberto e Vera Santos encerram questões polêmicas. Em relação ao primeiro autor, sua posição - muito comum entre profissionais e estudiosos da área -, é refutada por Wilson Bueno pelo fato de promover a atividade científica, apegando-se à sua capacidade de mudar o mundo a partir do saber preciso, objetivo, racional e universal; no que concerne a Santos, Bueno assevera que reduzir o processo de divulgação científica aos meios de comunicação de massa legitima a atividade jornalística ao caminho de mão única hoje praticado, reproduzindo a estrutura anti-democrática do saber científico e tecnológico. Ademais, cumpriria descobrir o que e qual seria esta linguagem acessível ao grande público.

Para Moore, "ciência é quase sempre um negócio ambíguo; os jornalistas envolvidos na cobertura científica têm que conviver com este fato. Além disso - afirma - os jornalistas podem reportar os argumentos e contra-argumentos dos vários lados de uma disputa com facilidade, mas não estão adequadamente preparados para avaliá-los com imparcialidade". (16)

Nesta mesma linha, Stephen Klaidman afirma que, "na cobertura de saúde, repórteres e editores também trabalham com resultados científicos incertos, hipóteses não testadas em seres humanos, teses contraditórias sobre o mesmo tema, além de interesses econômicos e políticos". Para ele, "apesar desses problemas não serem exclusivos do jornalismo de saúde, acabam tendo implicações maiores nessa área. Em política ou economia, um grupo limitado de leitores se interessa pelos temas abordados e adquire a esperteza e a sofisticação necessárias para acompanhar a especificidade deles. Esse grupo de leitores aprende a ler as entrelinhas, avaliar as fontes mesmo quando não estão indicadas, reconhecer os interesses políticos e entender pelo menos o básico sobre os aspectos técnicos do assunto. O mesmo não vale para a saúde: apesar de haver um grupo limitado que sabe como ler as matérias, praticamente todas as pessoas estão interessadas nessa área, mesmo que não entendam o mínimo de ciência". (17)

Para Dorothy Nelkin, a cobertura sobre possíveis riscos para a saúde (donde pode-se salientar os riscos adversos de um dado medicamento) tem sido considerada "histérica, sensacionalista e confusa, e as explicações para isso são:

  • ao reportar incidentes, os jornalistas têm pouquíssimo tempo para pesquisar a fim de dar ao leitor uma análise independente sobre os fatos;
  • como a imprensa não tem condições para desenvolver uma investigação independente e cientificamente competente sobre o caso, é obrigada a confiar em fontes envolvidas com a questão e com interesses a defender. É comum tais fontes tentarem influenciar a cobertura da imprensa;
  • em busca de respostas definitivas, a imprensa tende a rejeitar declarações de cientistas que tentam explicar que eles mesmos ainda não sabem avaliar a extensão de determinado risco;
  • a imprensa dissemina a idéia de que a ciência possui todas as soluções. Ao agir assim, perpetua-se uma falsa imagem de ciência e de sua contribuição para a sociedade".(18)

Na busca pela melhor forma de atrair o público para a informação, Nelkin aponta alguns desvios cometidos pelo Jornalismo Científico, dos quais destacamos: figuras de linguagem são utilizadas em detrimento do conteúdo científico; e fatos científicos acabam gerando esperança, entusiasmo prematuro e expectativas otimistas demais e depois caem em desilusão quando não se concretiza

Aaron Cohl analisa com sensibilidade a forma pela qual a mídia apavora ou nutre as esperanças dos leitores. Parte ele do pressuposto de que a ciência e o jornalismo têm diferenças conceituais quase que irreconciliáveis, que originam a maioria dos erros. "Cientistas sempre lidam com probabilidades. Eles não dizem este produto causa câncer, mas sim que parece haver alguma relação entre o produto e o crescimento de células cancerosas em animais de laboratório". Esse tipo de declaração, segundo Cohl, "não combina de forma alguma com o tipo de informação que a mídia busca. A mídia busca verdades que, mesmo relativas, tenham a capacidade de ser convertidas em absolutas, qual um veredicto simples e definitivo que levante o interesse do público e seja facilmente apreendido". (19)

De fato, conforme lembra Luciana Simões, "a ciência possui uma característica que exerce forte influência sobre a imprensa: a autoridade de suas teorias. Além de autoridade suprema, a ciência é pura e neutra, incapaz de deixar-se corromper". (20)

Para a filósofa Marilena Chauí, "a ciência contemporânea funda-se nos seguintes pilares:

  • na distinção entre sujeito e objeto do conhecimento, que permite estabelecer a idéia de objetividade, isto é, de independência dos fenômenos em relação ao sujeito que conhece e age;
  • na idéia de método como um conjunto de regras, normas e procedimentos gerais, que servem para definir ou construir o objeto e para o auto-controle do pensamento durante a investigação e, após esta, para a confirmação ou negação dos resultados obtidos;
  • nas operações de análise e síntese, isto é, de passagem do todo complexo às suas partes constituintes ou de passagem das partes ao todo que as explica e determina;
  • na idéia de lei do fenômeno, isto é, de regularidades e constâncias universais e necessárias, que definem o modo de ser e de comportar-se do objeto, seja este tomado como um campo separado dos demais, seja tomado em suas relações com outros objetos ou campos de realidade;
  • na criação de uma linguagem específica e própria, distante da linguagem cotidiana e da linguagem literária".(21)

Somente pelo último pilar proposto por Chauí já se pode perceber a problemática que se abre entre Ciência e Jornalismo. Para ela, "a linguagem cotidiana é conotativa e polissêmica, ou seja, as palavras possuem múltiplos significados simultâneos, subentendidos, ambigüidades e exprimem tanto o sujeito quanto as coisas; a linguagem científica destaca o objeto das relações com o sujeito, separa-o da experiência vivida cotidiana e constrói uma linguagem puramente denotativa para exprimir sem ambigüidades as leis do objeto. O simbolismo científico rompe com o simbolismo da linguagem cotidiana construindo uma linguagem própria, com símbolos unívocos e denotativos, de significado único e universal. O ideal de cientificidade impõe às ciências critérios e finalidades que, quando impedidos de se concretizarem, forçam rupturas e mudanças teóricas profundas". (22)

Claro está que o discurso científico é um discurso instituído. De forma muito feliz, Marilena Chauí usa o termo discurso competente como sendo "aquele que pode ser proferido, ouvido e aceito como verdadeiro ou autorizado. Em um mundo como o nosso, que cultua patologicamente a cientificidade, não é qualquer um que pode dizer a qualquer outro qualquer coisa em qualquer lugar e em qualquer circunstância. O discurso competente confunde-se, pois, com a linguagem permitida ou autorizada, a saber, com um discurso no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeterminados para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones da esfera de sua própria competência" (23). Por este motivo - continua Chauí - "aceita-se a ideologia da competência, a partir da idéia de que há, na sociedade, os que sabem e os que não sabem, que os primeiros são competentes e têm o direito de mandar e de exercer poderes, enquanto os demais são incompetentes, devendo obedecer e ser mandados. A sociedade é dirigida e comandada pelos que sabem e os demais devem executar as tarefas que lhes são ordenadas. Assim surge a crença na mitologia da ciência como se fosse magia e poderio ilimitado sobre as coisas e os homens, dando-lhe o lugar que muitos costumam dar às religiões, como um conjunto doutrinário de verdades intemporais, absolutas e inquestionáveis". (24)

Sérgio Adeodato endossa as opiniões de Chauí, ao afirmar que "a visão de mundo que é captada pelo jornalismo científico através de suas fontes e irradiada a todo o ambiente é a da ciência como solução para todos os problemas da humanidade. O cientista passa a ser o dono da verdade final e indiscutível. O jornalismo, nas informações sobre política e, mais atualmente, sobre as notícias de economia, tem demonstrado como regra certo ceticismo em relação às informações que vêm do governo, das empresas ou de outras instituições. Na captação e redação das matérias sobre ciência, no entanto, não há ainda a veiculação de polêmica, de questionamento sobre resultados de projetos científicos e/ou tecnológicos, cuja divulgação nos jornais serve mais para destacar instituições e/ou personalidades científicas. Não há investigação, confronto de idéias e teorias, nem a discussão sobre a natureza da própria ciência". (25)

Na opinião de Adeodato, esta forma de perceber os fatos científicos espalha uma espécie de ‘cultura científica’ onde não há espaço para o conhecimento intuitivo. Assim, quando o leitor recebe as informações no dia seguinte, estará sendo alimentado com normas estabelecidas, a principal delas é a da objetividade da ciência. "O que ocorreria com a empresa-editora se passasse a questionar esses valores e os resultados da pesquisa de um renomado cientista? E se revelasse os riscos que algumas pesquisas trazem consigo? Se o repórter fizer isso, poderá perder suas fontes e, em conseqüência, a credibilidade por parte do ambiente. Muitas vezes, o cientista se incomoda menos com o sensacionalismo ou erro de precisão do jornalista do que com o questionamento de suas conclusões, de sua forma de encarar determinado fato científico". (26)

Frijof Capra possui uma visão de mundo que vai ao encontro da posição de Adeodato. Sua clássica obra O ponto de mutação é a expressão de um novo paradigma, de uma visão holística de mundo que percebe a inter-relação de tudo: Ciência, Natureza, Ecologia, Política, Física Quântica e o Homem. Segundo Capra, "a imagem pública do organismo humano - imposta à força pelo conteúdo dos programas de televisão e, especialmente, pela publicidade - é a de uma máquina propensa a constantes avarias, se não for supervisionada por médicos e tratada com medicamentos. A noção de poder de cura inerente ao organismo e a tendência para manter-se saudável não é comunicada, não sendo valorizada a confiança do indivíduo em seu próprio organismo. Tampouco é enfatizada a relação entre saúde e hábitos de vida; somos encorajados a pressupor que os médicos podem consertar tudo, independentemente de nosso estilo de vida". (27)

Complementando Capra, o mesmo Adeodato lembra que o reforço dessa noção de vida e ciência que temos faz com que surjam "os hipocondríacos ou os que têm grande interesse pelas matérias sobre novas formas de tratamento, medicamentos lançados no mercado, etc. É uma massa significativa de leitores que não interessa ao jornal, aos médicos (fontes) nem às indústrias farmacêuticas perdê-la".(28) É por essa razão que, para Sérgio Adeodato, "um repórter que tem cinco matérias diárias sobre ciência para fazer e o editor que precisa fechar a página em pouco tempo dominam a técnica, os critérios de seleção de dados e os artifícios usados para estimular e atender os interesses dos leitores e da empresa, mas o lado ético e as considerações filosóficas sobre o "dever ser" do jornalismo científico normalmente fogem à percepção diária da maioria destes profissionais". (29)

Bernardo Kucinski sistematizou em seu escrito O jornalismo e a cobertura de saúde algumas características da relação entre jornalistas e profissionais da saúde. No que diz respeito ao jornalista, o autor ressalta: a) o preparo inadequado para cobrir a área da saúde, confundindo temas e especialidades, bem como incapacidade em captar com precisão a devida linguagem; b) a busca pela legitimação de uma pauta já concluída antes mesmo de sair da redação, em detrimento da informação verdadeira e correta, de modo apenas a sustentar determinada teoria; c) o erro ao considerar o médico como única fonte para dar informações sobre saúde, desprezando o caráter multiprofissional dessa área de conhecimento. (30)

Quando a imprensa reporta novidades de forma promocional, passando ao público uma mensagem que associa desenvolvimento a soluções mágicas para os problemas, pode-se supor que as conseqüências são desastrosas. Nelkin cita, na área de saúde, novos procedimentos e tratamentos medicamentosos, que costumam ser rotulados como curas definitivas. De fato, tantas são as novidades levadas ao conhecimento público em relação ao combate de doenças crônicas como câncer, Aids, diabetes e mesmo impotência, que parece termos chegado muito próximo da noção de que a ciência possui, de fato, a cura para todos os males.

Concordamos com a opinião de Wilson Bueno, segundo a qual "tem havido uma tendência a explorar, de maneira irresponsável e sensacionalista, os fatos e resultados da ciência, configurando uma situação constrangedora para as fontes de informação da área científica e de descrédito para o próprio Jornalismo Científico". (31)

Estreitando a relação entre Jornalismo e Ciência, Marques de Melo assevera o seguinte sobre o tema:

(...) "o conceito está inevitavelmente impregnado da concepção de Jornalismo que se pratica nas sociedades capitalistas, na época contemporânea. Não se trata mais daquele Jornalismo político-social que predominou do século 18 a meados do século 19 e sim do Jornalismo ideológico mercantil que se afirmou em fins do século XIX e persiste até hoje".

(...) "o Jornalismo contemporâneo se manifesta através do sensacionalismo (para vender a notícia é preciso despertar as emoções do público consumidor) e atomização (o real é percebido não em sua totalidade, mas em seus fragmentos: política, economia, esportes, ciência, etc). Assim sendo, o Jornalismo Científico é produto típico dessa ideologia do Jornalismo na sociedade capitalista. Destina-se a apreender uma parte do real – aquela que ocorre nos laboratórios de pesquisa, que, por sua vez, só se torna notícia quando desperta a atenção". (32)

Segundo Bernardo Kucinski, "o jornalismo voltado à saúde, sem deixar de dialogar com o modelo biomédico da doença, precisa trabalhar a saúde e a doença a partir de suas determinantes sociais, econômicas e culturais, devendo o jornalista manter uma postura crítica em relação aos aspectos espetaculares da cura. Não é a doença do indivíduo que interessa ao jornalismo. Reportar doenças na cobertura da saúde coletiva significa discutir os nexos entre essas condições sociais e o mecanismo causal específico da doença ou da epidemia e discutir as relações com a sociedade". Para ele, "a indústria farmacêutica expropriou o instrumento de cura do médico - o remédio - , dando-se a progressiva medicalização do corpo, tendo a mídia um papel ideológico destacado. A medicina passou a abarcar toda uma série de problemas pequenos e situações que não necessitam drogas ou tratamento clínico - , mas apenas mudanças de hábitos, alimentação e

comportamento -, oferecendo a fuga fácil pela droga. Com isso, foi-se reduzindo a capacidade do indivíduo superar seus problemas e confrontar o sofrimento, apagou-se a noção da cura por processos naturais do próprio organismo e foi aumentando sua dependência por medicamentos. Em todo esse processo, a mídia tem sido usada como instrumento ideal de convencimento e proselitismo". (33)

Michel Thiollent, em seu artigo Jornalismo Científico e suas funções no conjunto da comunicação social, aborda o conceito de ‘ideologia da ciência’, segundo o qual "o homem sempre vence todos os desafios da natureza". Para ele, deve-se combater com veemência o que chama de "espetáculo da ciência". (34)

Nos Cadernos de Jornalismo Científico, Wilson Bueno faz uma afirmação com a qual, mais uma vez, por força da experiência prática, concordamos. Segundo ele, "o Jornalismo Científico é financiado pelas grandes empresas multinacionais, que, através dele, informam a opinião pública de suas realizações no campo científico e tecnológico. (...)Como está estruturado, atualmente, o Jornalismo Científico funciona como instrumento de dominação".(35)

Como se percebe, não nos falta teoria para entender alguns dos obstáculos que se colocam no processo de transferência de conhecimento feito pelo Jornalismo Científico. Esses obstáculos puderam ser mensurados na última pesquisa de opinião, em nível nacional, sobre o que o brasileiro pensa a respeito da Ciência e da Tecnologia, realizada nos meses de janeiro e fevereiro de 1987, encomendada ao Instituto Gallup pelo Cnpq (Instituto Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e publicada sob o título "O que o brasileiro pensa da ciência e da tecnologia ? (a imagem da ciência e da tecnologia junto à população brasileira)". (36)

Os dados deste trabalho demonstram que 70% da população urbana do Brasil lia sobre ciência e tecnologia, 31% afirmou gostar muito do assunto e 20% dos adultos declararam trabalhar em alguma área correlata.

Uma das perguntas era se os órgãos de comunicação noticiavam, satisfatoriamente, as descobertas científicas e tecnológicas, e o observado foi que 70% dos entrevistados consideram insuficientes os dados divulgados. A conclusão do Instituto Gallup foi que, apesar do grande interesse manifestado, os avanços científicos e tecnológico estão distantes da vida diária das pessoas. Para elas, a ciência tem relação com as coisas que estão muito além da compreensão.Atualmente, decorridos 16 anos desta pesquisa, é possível que o índice de 70% tenha aumentado significativamente, uma vez que a globalização e o uso de novas tecnologias (ex: Internet) disseminam a informação sobre as descobertas a uma velocidade cada vez maior.

Há que se considerar a crítica proposta por Wilson da Costa Bueno, segundo a qual deve-se "repudiar a visão conservadora que costuma enxergar os jornalistas como simples intermediários no processo de divulgação da ciência". Segundo Bueno, "a importância da ciência e da tecnologia para o cidadão do novo milênio, extremada pelo advento da Sociedade da Informação e da Nova Economia, requer de todos, e especialmente dos multiplicadores de opinião, uma tomada de posição. Exige uma mobilização permanente, aquele espírito cético a que se referia Carl Sagan, sob pena de nos vermos de mãos atadas para enfrentar os desafios da nova comunicação científica, que aproxima, de maneira vertiginosa, e muitas vezes sutil, informação e marketing, ciência e mercado, tecnologia e capital financeiro". (37)

Wilson Bueno defende que esse papel não deve e não será desempenhado apenas pelos jornalistas científicos, mas por todos aqueles, especialmente os cientistas, que se preocupam com o sigilo e o controle da informação e dos resultados de pesquisa, mercê da relação, que pode ser espúria, entre patrocinadores e produtores de ciência e tecnologia. "Os meios de comunicação têm, de caso pensado ou por ingenuidade (incompetência, despreparo), tornado-se cúmplices de interesses políticos, econômicos e comerciais, atuando como autênticos porta-vozes de indústrias, governos, institutos de pesquisa ou governos mal intencionados. Em alguns casos, fica difícil distinguir, dentre o noticiário, também no de caráter científico, os limites entre a informação e o marketing, podendo ser identificados com alguma freqüência, na mídia, releases de imprensa, emitidos por empresas e entidades, travestidos de notas e notícias confiáveis. Já se tornaram emblemáticos o episódio da fusão a frio, amplamente noticiado pelos meios de comunicação em todo o mundo, e que se constitui num espetáculo de promoção pessoal de pesquisadores em busca dos holofotes da fama, e as insistentes descobertas de medicamentos revolucionários (Prozac, Xenical, Viagra, etc.), "cases" de marketing farmacêutico vendidos pela mídia como exemplos de autêntica informação científica". (38)

Definitivamente, vivemos um momento histórico. Empresas e países estão enfrentando um novo conjunto de problemas: competição global crescente, deterioração ambiental, fusão de mercados e a conseqüente necessidade de sobreviver às difíceis situações que daí advêm e uma gama de outros problemas econômicos, políticos e sociais.

Segundo Dênis de Moraes, em artigo publicado no portal Sala de Prensa, "os mastodontes da difusão movem-se pela Terra a partir de um modelo de gestão que se vai firmando como paradigma universal, e cuja voracidade por ganhos de capital não conhece qualquer limite. Com alianças e fusões, a concorrência praticamente restringe-se ao clube de players, dotados de fortes reservas de capital, de know-how tecnológico e de capacidade de articular consórcios transoceânicos. Essas inversões afastam ainda mais empresas de menor porte das arenas competitivas e sedimentam uma industrialização em torno de complexos empresariais. A palavra de ordem é otimizar as performances do sistema produtivo, sobretudo a partir da convergência de tecnologias e de reengenharias operacionais, para maximizar vantagens e lucros... Concluímos que a mundialização das informações e do entretenimento desenrola-se sob o signo da oligopolização e da concentração multinacionalizada de suportes, mercadorias e serviços – apesar de os arautos da globalização insistirem nos benefícios das novas e abundantes safras de produtos culturais. À medida que essa configuração se cristaliza, reduz-se o campo de manobra para um desenvolvimento equilibrado e estável dos sistemas, meios e redes de comunicação, e agravam-se descompassos estruturais, no contexto da desnacionalização de áreas estratégicas". (39)

Certamente um dos grandes desafios do jornalismo científico será, diante do crescente monopólio da informação, ficar atento ao uso e sedução através de discursos que imprimem no imaginário coletivo a crença em um mundo mágico e sobrenatural. Como outrora observou o escritor e cientista Carl Sagan, "a mágica requer cooperação tácita entre o público e o mágico". (40) Segundo Sagan, é exatamente isto que se tem de evitar.

Notas

1) Manuel Calvo HERNANDO, Teoria e técnica do jornalismo científico, p. 15.

2) Vera Lúcia Salles de Oliveira SANTOS, João Ribeiro como jornalista científico no Brasil (1895-1934), p. 1

3) Wilson da Costa BUENO, Jornalismo científico no Brasil: os compromissos de uma prática dependente, p. 20.

4) Wilson da Costa BUENO, Jornalismo científico no Brasil: aspectos teóricos e práticos, p. 24.

5) Roberto Pereira MEDEIROS, Ciência e imprensa: a fusão a frio em jornais brasileiros, p. 58.

6) Manuel Calvo HERNANDO, Teoria e técnica do jornalismo científico, p. 18.

7) Hillier KRIEGHBAUM, A ciência e os meios de comunicação de massa, p. 22.

8) Ibid., p. 23.

9) Ibid., p. 41.

10) Osvaldo FROTA-PESSOA, José Reis, o divulgador da ciência. In: Ciência e cultura, p. 2454.

11) José Marques de MELO, Quando saúde é notícia, p. 21.

12) José Marques de MELO, Gêneros opinativos no jornalismo brasileiro, p. 24.

13) Luciana Miranda SIMÕES, A saúde na imprensa brasileira, p. 62.

14) Juan ALBERTO VERGA, El periodismo científico en el desarrollo de los pueblos, p. 63.

15) Vera Lúcia Salles de Oliveira SANTOS, João Ribeiro como jornalista científico no Brasil (1895-1934), p. 9.

16) Mike MOORE, Health risks and the press: perspectives on media coverage of risk assessment and health, p. 111.

17) Stephen KLAIDMAN, Health in the headlines - the stories behind the stories, p. 3-22.

18) Dorothy NELKIN, Selling science: how the press covers science and technology, p. 217.

19) Aaron COHL, How pessimism, paranoia and misguided media are leading towards disaster, p. 104.

20) Luciana Miranda SIMÕES, A saúde na imprensa brasileira, p. 78.

21) Marilena CHAUÍ, Convite à filosofia, p. 278-279.

22 )Marilena CHAUÍ, Convite à filosofia, p. 279.

23) IDEM, Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas, p. 7.

24) IDEM, Convite à filosofia, p. 281.

25) Sérgio ADEODATO, O conceito de jornalismo científico: teoria e prática, p. 6-7.

26) Ibid., p. 10.

27) Frijof CAPRA, O ponto de mutação, p. 139.

28) Sérgio ADEODATO, O conceito de jornalismo científico: teoria e prática, p. 28.

29) Ibid., p. 1-2.

30) Bernardo KUCINSKI, O jornalismo e a cobertura de saúde, texto datilografado.

31) Wilson da Costa BUENO, Jornalismo científico no Brasil: os compromissos de uma prática dependente, p. 50.

32) José Marques de MELO, Quando saúde é notícia, p. 19.

33) Bernardo KUCINSKI, Robert J. LEDOGAR, Fome de lucros, p. 45.

34) Michel THIOLLENT, Comunicarte, p. 126.

35) Wilson da Costa BUENO, Cadernos de jornalismo científico, p. 5-9.

36) INSTITUTO GALLUP, O que o brasileiro pensa da ciência e da tecnologia? (a imagem da ciência e da tecnologia junto à população brasileira).

37) Wilson da Costa BUENO, Os novos desafios do jornalismo científico (2002), http://www.comtexto.com.br

38) Ibid.

39) Dênis de MORAES, Comunicação sob domínio dos conglomerados multimídias (2002),

www.saladeprensa.org/art56.htm

40) Carl SAGAN, O mundo assombrado pelos demônios, p. 173.

Defesa de dissertação de tese na ECA, em novembro de 2005